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sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
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nenhum ofício cantante
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o tenha convencido a permanecer entre os vivos
(UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL, 1984/1985) P. 506
O poema
Os dias sem ninguém
, do poeta Al Berto não possui um esquema de
rimas, seguindo uma construção livre.
No verso 3 percebe-se o uso de uma metáfora: “senta-se no estremecer da noite”,
que não é literalmente sentar na noite, mas, sim, sentir-se inseguro e melancólico com a
chegada da noite, que, geralmente, agrava os sentimentos de dor, saudade, medo.
Portanto, além de ter uma temática semelhante a do poema de Pessanha, o poema de Al
Berto traz o símbolo da noite como sinônimo da crise existencial com raízes na dor.
Percebe-se, também, no verso 2 a imagem do “óculos escuros” no qual o eu-lírico diz se
esconder que é, mais uma vez, símbolo de referência ao escuro, ao melancólico,
desconhecido.
O título do poema de Al Berto,
Os dias sem ninguém
, nos prepara para a
representação da solidão, de certa tristeza e desolação que, no decorrer do poema, será
evidenciada.
O poema tem início com a ideia clara de que esse ser já foi tomado pelo amor e
pela paixão, provavelmente em sua juventude, mas que o presente é solitário, é o
momento no qual esse eu-lírico se esconde “nuns óculos escuros”, ou seja, se fecha em
si mesmo, se recolhe, se esconde de sentimentos, de pessoas e até de si mesmo.
Tomado por esse sentimento de aniquilamento, tenta perceber o que ainda restou
do jovem que fora, dos sonhos que tivera e do amor que vivera; do rosto adolescente
que a velhice deixou turvo.
Esse ser, como ninguém, conhece a solidão, conhece a tristeza e a imersão em
seus próprios sentimentos, como alguém que permanece acordado, permanece
consciente de sua posição enquanto pessoa.
Além do sentimento de solidão, o eu-lírico sente que o tempo passa, que a
velhice se aproxima, que os dias correm, que a idade avança, bem como percebemos na
segunda estrofe. Por isso, essa pessoa olha-se no espelho, que pode representar o olhar
para si próprio, para seu interior, o refletir sobre sua vida e percebe que a resposta é o
medo, que é o guia de sua existência.
Esse eu-lírico se aproxima da morte, uma vez que, mesmo em vida, não quis
permanecer entre os vivos. Na última estrofe percebe-se um ser que envelheceu pouco a
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