Diva Lea Batista da SILVA[63]
Resumo: Este trabalho procura mostrar a importância da leitura
e da interação em sala de aula para a produção textual. A argumentação será
fundamentada em Geraldi (1993), Lipman (1990) e Vygotsky (1987; 1991). Isto
porque destacam em suas obras, tanto uma concepção de linguagem, enquanto
atividade constitutiva, histórica e social, como uma concepção de produção de
atos cognitivos que se dão individualmente e em grupos (na integração e nos
conflitos). Salientam também a importância dos sujeitos da aprendizagem
(aluno/professor), nas ações lingüísticas (orais e/ou escritas) que são
provocadas em sala de aula, por meio do diálogo, do debate, do questionamento.
Sabemos que não
há uma fórmula pronta, para se desenvolver a habilidade de redigir. É
necessário tempo, treino, esforço, estudo. Por outro lado, existem hábitos que
podem facilitar tal capacidade, como a leitura, a observação crítica da
realidade, a experiência com diversos tipos de textos.
O ato de escrever não começa quando nos é colocado um papel à frente,
ele começa muito antes, na nossa infância: o que fizemos e aprendemos com a
nossa família e amigos, o uso que os vimos fazerem da escrita (leituras
diversas, cartas, bilhetes), nossas idéias, conversas, brincadeiras, leituras
feitas para nós e por nós. Enfim, essa “bagagem cultural”, o nosso repertório
verbal será material valioso para nossas futuras escritas.
Embora a leitura seja um dos elementos que constituem o processo de
produção da escrita, não há uma relação mecânica entre ler-se muito e
escrever-se coerentemente. Isto é, quem escreve bem não é naturalmente um bom
leitor, assim como nem sempre quem lê bastante escreve bem.
Ressalvando esse fato, admitimos com Orlandi & Guimarães (1985:165-80,
grifos autores), três aspectos na relação leitura/escrita:
1- A leitura fornece matéria-prima para a escrita: o que
escrever;
2- A leitura
contribui para a constituição dos modelos: o como escrever.
3- A leitura
coloca o leitor em contato com os procedimentos de organização interna do texto.
Como Geraldi
(1993:168-80), vemos quatro tipos de relação com o texto que devem ser levados
em conta, em sala de aula:
a) leitura-busca-de-informações: é quando
temos uma pergunta e vamos ao texto em busca de uma resposta, com o objetivo de
querer saber mais sobre o assunto, seja para uso imediato ou para uso posterior
dessa informação. Esse texto deve responder às necessidades do momento, ao
mesmo tempo, provocando outras necessidades;
b) leitura-estudo-do-texto: é quando podemos retirar do texto
tudo o que ele possa oferecer para sabermos mais, o que pode fazer com que o
aluno seja um “perguntador”. Geraldi aponta aqui o problema da alienação e
massificação, no caso, respostas encontradas serem consideradas definitivas
pelos alunos, fazendo com que estes não produzam novas perguntas;
c) leitura-pretexto: é quando fazemos o uso da leitura para a
produção de novos textos, refletindo sobre a maneira como o autor organizou o
que tinha a dizer. Há aqui o perigo de apenas o professor expor e discutir a
sintaxe dos enunciados do texto-pretexto, sem discuti-la com o aluno,
apresentando-a como mecanismos sintáticos já prontos e imutáveis;
d) leitura-fruição: é quando vamos ao texto
sem perguntas feitas antecipadamente, sem pretender usá-lo para outros textos,
sem investigá-lo, sem pesquisá-lo: vou ler para perceber o prazer que ele me
dá, vou usufruir de sua leitura como gozo - a leitura será como uma porta
aberta ao sonho, à imaginação.
Na investigação do texto, podemos tirar tópicos a serem discutidos em
sala de aula, que vão em busca de outras informações, descobrindo assim outras
formas de pensar que podem levar à construção de novas formas de pensar. É
quando a leitura se integra ao processo de produção de textos.
Se levarmos em
conta a leitura, ao preparar as nossas aulas, estas poderão ser mais dinâmicas,
os assuntos lidos serão compartilhados e nossas aulas serão atos convividos.
Grande parte do sucesso da dinâmica dessas aulas está na fase de predisposição
para a leitura, na qual o professor pode despertar o interesse do aluno pelo
texto a ser lido ou estudado, por meio de debates, estímulos à sua curiosidade,
à pesquisa.
O escritor argentino Adolfo Bioy Casoy, em uma entrevista para o jornal
Folha de São Paulo (04/08/95, Cad. 5,
p. 3), afirma que os livros têm obrigação de seduzir o leitor, têm que ter uma linguagem coloquial, sem
sobressaltos, que sejam fáceis de ler. (....) Comicidade e suspense são dois
elementos literários muito importantes para seduzir o leitor, que deve ser
seduzido.[64].
Os artigos da imprensa ao mesmo tempo que identificam os problemas
relacionados ao assunto, como a falta de leitura por parte do professor, dos
alunos e dos pais, a inexistência de bibliotecas nas escolas: bibliotecas
precárias, a falta de verbas tanto da escola como dos alunos, para compra de
livros, mostram também as possibilidades de se reverter o atual quadro.
Muitos
acham que a leitura é um ato solitário, mas para nós, pode funcionar como elemento
de socialização: “ato solidário”. Mediante a discussão e troca de idéias, a
partir de um mesmo texto, da dramatização, os alunos aprendem a conviver,
integrando experiências e aprendendo a respeitar a palavra do outro.
A partir dessas
considerações iniciais sobre a relação leitura e escrita, chegamos aos autores
que podem embasar uma proposta didático-pedagógica para o ensino de redação:
1) Para Vygotsky, a leitura nunca é mera decodificação mecânica. Nos
momentos em que a codificação dos signos está presente, a leitura vem
impregnada de sentido, o qual predomina sobre o significado da palavra. As
mudanças de sentido não atingem a estabilidade do significado. Segundo
Vygotsky, as palavras obtêm seu sentido no contexto do discurso; mudando o
contexto, varia o sentido da palavra.
Enquanto a idéia
de contexto é vaga nos escritos de Vygotsky, Bakhtin desenvolve melhor essa
idéia: a palavra está sempre carregada de
um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial (BAKHTIN, 1986:95).
Por isso, todo discurso é ideológico e polêmico: a significação real de um
enunciado está definida pela interação de vozes ou perspectivas ideológicas
abrangentes.
Para Platão
& Fiorin (1992:12), contexto pode ser definido como uma unidade
lingüística maior onde se encaixa uma
unidade menor. Assim, a frase encaixa-se no contexto do parágrafo, o parágrafo
encaixa-se no contexto do capítulo, o capítulo encaixa-se no contexto da obra
toda. Esses autores observam também que nem sempre o contexto se manifesta
explicitamente por palavras, ele pode estar implícito na situação concreta em
que é produzido. Diante disso, eles concluem:
Uma boa leitura nunca pode basear-se em fragmentos
isolados do texto, já que o significado das partes sempre é determinado pelo
contexto dentro do qual se encaixam (...)
Uma boa leitura nunca pode deixar de apreender o
pronunciamento contido por trás do texto, já que sempre se produz um texto para
marcar posição frente a uma questão qualquer. (Ibidem:13-14)
2) Lipman (1990) comenta que, para muitas crianças, a leitura da língua que falam tão natural e prontamente é um exercício horrível e a da escrita é ainda pior. Elas adoram escutar histórias e podem, muitas vezes, recusar-se a ler essas mesmas histórias. Talvez o motivo esteja nas técnicas mecânicas que dão ênfase à fonética e à gramática e bloqueiam a criança na hora de ler e/ou escrever.
Para que a
leitura e a escrita sejam vistas como conseqüências naturais da conversação[65],
os professores devem estar conscientes da íntima relação que há entre estes
três processos. Ao ensinarmos a leitura, devemos destacar os significados
extraídos do texto que é lido. Devemos também preparar a criança para a
compreensão da ambigüidade das palavras: uma palavra conhecida não tem somente
um, mas vários significados e eles podem variar num determinado contexto. Isso
vai prepará-la não somente para os
trocadilhos, equívocos e duplo sentido do discurso diário, mas também para as
alusões ricas da literatura, para as ligações dúbias das relações humanas e
para a transformação da própria natureza. (LIPMAN, 1990:125)
Lipman acrescenta, porém, que o movimento leitura-fala-escrita não
obedece a uma seqüência definida, pois um aluno pode começar a escrever, quando
está aprendendo a ler. O autor salienta que estes três componentes - leitura,
fala e escrita - estão estreitamente ligados e que todo professor deveria
prestar mais atenção a essa interligação.
E é a
conversação, segundo esse autor, que servirá de mediadora entre a leitura e a escrita.
O aluno precisa ser encorajado a trabalhar com as palavras, para que se desiniba
intelectualmente e vice-versa. A fala e a escrita são formas de pensamento, são
atividades que podem aperfeiçoar as habilidades cognitivas.
Em um ambiente de discussão animada é que os alunos devem ser encorajados a expressar seus pensamentos na forma escrita, pois muitos deles não tiveram oportunidade de dizer, em sala de aula, coisas que pensaram, leram e discutiram em grupo.
Pelas
pesquisas recentes, sabemos que é durante a interação que o aluno mais inexperiente
entende o texto: não é durante a leitura silenciosa, nem durante a leitura em
voz alta, mas durante a conversa sobre os pontos importantes do texto. Estes,
muitas vezes, ficam obscuros para o aluno e, na discussão dialogada, eles vão
sendo esclarecidos. É também o trabalho diário, com vários tipos de textos, que
vai fazer com que o aluno compreenda o texto lido: é a vivência e
convivência com textos, por meio da leitura e da escrita, que contribuirão,
que darão suporte à concatenação das idéias, que permitirão a ele uma reflexão
e análise crítica sobre o uso da língua materna.[66]
BIBLIOGRAFIA
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1986.
CORRÊA, M. L. G. Da leitura à produção do
texto: uma modalidade de ensino de redação. ALFA:
Revista de Lingüística, São Paulo, n. 36, p.25-38, 1992.
GERALDI, J. W. Concepções de linguagem e
ensino de português. In: GERALDI, J. W. O
texto na sala de aula: leitura e produção. Cascavel: ASSOESTE, 1985,
p.41-8.
__________. Portos de passagem. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
KLEIMAN, A. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. Campinas: Pontes,
1989.
__________. Oficina de leitura: teoria e prática. Campinas: Pontes, 1993.
LIPMAN, M. A filosofia vai à escola. São Paulo: Summus, 1990.
ORLANDI, E. P., GUIMARÃES, E. R. J. Texto, leitura e redação. São Paulo:
SE/CENP, 1985.
PLATÃO, F. S., FIORIN, J. L. Para entender o texto. São Paulo: Ática,
1992.
VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
__________.
Formação social da mente. São Paulo:
Martins Fontes, 1991.
“QUALIDADE” NO CONTEXTO DA ADMINISTRAÇÃO DE
EMPRESAS: UMA ANÁLISE SOCIOSSEMIÓTICA
Eliana
Ribeiro da SILVA[67]
Resumo: Este trabalho propôs-se a examinar o emprego do termo qualidade e o efeito de sentido
produzido no contexto da Administração de Empresas. O corpus foi constituído por texto coligido da obra de Kaoru Ishikawa
- “TQC-Total Quality Control” Estratégia
e Administração da Qualidade. Foram utilizados modelos da Semântica Lexical
e da Sociossemiótica. Para obtenção do significado do termo, procedeu-se ao
estudo semântico-lexical das combinações de palavras. Quanto ao efeito de
sentido, verificou-se em Semântica Profunda, uma axiologia baseada na oposição
qualidade x displicência. Constatou-se, ainda, a utilização de mecanismos e
valores como instrumentos de persuasão, manipulação e sedução, para conduzir funcionários a uma adesão aos valores
considerados positivos para uma administração eficiente, e o consumidor a uma
adesão aos valores de prestígio e ascensão de nossa sociedade.
0. Introdução: A necessidade de se destacar a importância do termo qualidade no contexto da Administração
de Empresas deve-se ao fato de que, nas sociedades industriais e
pós-industriais, empresas bem sucedidas vêm garantindo e propagando tal
estatuto graças à confirmação do público consumidor que, procurando por
produtos ou serviços com a promessa da garantia de qualidade, faz com que o
nome que rotula tais produtos ou serviços seja mais conhecido e por ele
procurado do que o produto propriamente dito; consagrando, assim, a marca.
Sabe-se que
atualmente as empresas, na verdade, comercializam antes símbolos do que
produtos e que, através de tais símbolos, é possível que se verifiquem - ou não
- os signos de prestígio e ascensão de nossa sociedade. E as empresas, conhecedoras
desses valores, em nome da qualidade, passam não só a perseguir o sucesso,
representado pelo lucro, como também a adesão do consumidor, na forma do
reconhecimento.
Assim, uma
definição, ainda que provisória, de qualidade pode, segundo Vicente Falconi de
Campos in TQC-Controle da Qualidade Total (no estilo japonês) Capítulo 2 -
Sobrevivência e Produtividade p.2, aqui ser apresentada: “...um produto ou
serviço de qualidade é aquele que atende perfeitamente, de forma confiável, de
forma acessível e de forma segura e no tempo certo às necessidades do cliente.”
Ainda segundo o
autor, o verdadeiro critério da boa qualidade é a preferência do consumidor. O
que garantirá a sobrevivência de uma empresa é a preferência do consumidor pelo
produto dela em relação ao de seu concorrente, hoje e no futuro.
Uma vez
constatada a importância do termo
qualidade neste contexto, a contribuição que a Semântica Lexical pode
oferecer nos limites desta modesta pesquisa é estabelecer a significação das
lexias, uma vez que o léxico de uma língua e os vocabulários de normas de
universos de discurso definem-se como o espaço privilegiado das relações entre
língua, cultura e sociedade.
1. Considerações sobre lexia, vocábulo e palavra:
Pesquisas
realizadas nos últimos anos no campo da semântica lexical e gramatical
permitiram enriquecer o modelo original de signo lingüístico proposto por B.
Pottier e abriram novas perspectivas para o estudo da lexia, considerada como unidade de comportamento.
Em seu livro Ensaios semiótico-lingüísticos, C.T.
Pais (1986) considera válida a tentativa de se examinar certos problemas
relativos à redução e à transformação sêmio-táxica que sofrem as unidades
lexicais, quando de sua atualização em discurso.
Uma lexia
encontra-se disponível na memória de um falante-ouvinte no momento
imediatamente anterior àquele em que ela ocorre num ato de fala, sendo a
disponibilidade de uma lexia a condição a sua atualização. Assim é possível
distinguir-se dois tipos básicos de disponibilidade: a dos signos efetivos (já utilizados
em atualizações anteriores) e a dos signos virtuais (que compreende as
possibilidades de criação do sistema).
Denomina-se
lexema a lexia disponível para atualização, sendo este a unidade que se acha
construída no instante anterior ao da emissão lingüística e não necessita de
nenhuma elaboração suplementar, não exige nenhum esforço de codificação; logo,
os lexemas são unidades de língua, o conjunto de todas as lexias de um código
constitui seu universo léxico.
Quando uma lexia
se efetiva em discurso, denomina-se vocábulo, um modelo disponível já
atualizado anteriormente; o vocábulo é, desse modo, uma unidade de discurso,
que pertence a uma ou mais normas
léxicas.
Por outro lado,
toda vez que o modelo disponível atualizado em discurso, o vocábulo, ocorre,
tem-se uma lexia-ocorrência, uma palavra, que é considerada unidade de texto e
se situa ao nível da fala, em oposição ao vocábulo e ao lexema, que se
encontram, respectivamente, ao nível da norma e do sistema.
Resumindo,
compreende-se que relativamente aos níveis de atualização e suas
unidades-padrão, o lexema atualiza-se em sistema, o vocábulo, em normas e a
palavra, no falar.
Disto tudo,
depreende-se, pois, que o termo (ou vocábulo) qualidade assim se denomina por atualizar-se em discurso, e somente
neste domínio poder depreender-lhe o significado que vai especificado neste
trabalho.
2. Desenvolvimento do Corpus:
Examinando-se as combinações em que entra o termo qualidade observadas na obra Kaoru Ishikawa “TQC-Total Quality Control” Estratégia e Administração da Qualidade
constata-se que este termo só assume o significado que segue abaixo
especificado por atualizar-se em discurso; assim (Segue-se abaixo tabela
explicativa das combinações e suas respectivas significações no contexto da
Administração de Empresas, nos limites do corpus
examinado):
|
Grupo de Pesquisa do Controle da Qualidade (pág.16) |
Significado:
Grupo de pesquisa voltada ao controle da qualidade (QCRG - Quality Control
Research Group), com o objetivo de pesquisar e difundir os conhecimentos do
CQ. |
|
Qualidade
do Projeto (pág. 51) |
Significado:
Constitui a qualidade encarada como objetivo, representando as aspirações da
empresa de gerar produtos com nível em questão. |
|
Círculo
de Controle da Qualidade (pág.137) |
Significado:
Grupo junto à área de trabalho, tendo o supervisor ou encarregado como líder,
para estudar os artigos publicados e utilizar as técnicas assimiladas, para
resolver os problemas ali existentes. |
|
Controle
da Qualidade (pág.42) |
Significado:
Desenvolvimento, projeto, produção e assistência de um produto ou serviço que
seja o mais econômico e o mais útil, proporcionando satisfação ao usuário. |
|
Controle
Integrado da Qualidade (pág.88) |
Significado:
Sistemática que sempre se assentou na filosofia para a satisfação do
consumidor, desenvolvendo, produzindo e distribuindo produtos que eram
aspirados pelos usuários, dentro do enfoque básico do CQ. |
|
Qualidade
Efetiva (pág. 51) |
Significado:
É a capacidade de um meio de produção de reproduzir a qualidade preconizada
no projeto. |
|
Controle
da Especificação da Qualidade (pág. 52) |
Significado:
Trata-se de desenvolver, produzir, distribuir ou vender, seguidos de uma nova
pesquisa de mercado, reconsideração dentro do projeto da qualidade, gerando
assim produtos adequados de forma contínua. |
|
Análise
da Qualidade (pág. 203) |
Significado:
Consiste na confirmação das relações existentes entre as características
objetivas da qualidade e as características representativas, através dos
dados, e com emprego das técnicas estatísticas. |
|
Qualidade
por antecipação (pág. 48) |
Significado:
Características que proporcionam um detalhe adicional e positivo, que
contribui positivamente para a venda. |
|
Comissão
do Mês da Qualidade (pág.37) |
Significado:
Estruturada no Japão, desde 1960, por iniciativa de organizações privadas,
todo o mês de novembro de cada ano é dedicado a este propósito, sendo
realizados em todo o país diversos eventos que proporcionam a sua
disseminação. |
|
Prêmio
Deming da Qualidade (pág.193) |
Significado:
Prêmio Japonês de Controle da Qualidade outorgado anualmente, e se destina a
empresas que se destacaram em termos de CWCQ e em SQC. |
3. Efeito de sentido do termo qualidade no contexto da
Administração de Empresas:
Numa época de
intensa ebulição tecnológica, produção acelerada e, conseqüentemente, de
crescimento acirrado da competitividade, vários são os recursos utilizados por
empresas para conquistarem, de um lado, sua fatia no mercado e, por outro,
garantirem nele o seu lugar. Sendo assim, nada mais viável do que oferecer ao
consumidor um produto ou serviço dotado de uma característica atraente e
implacável que possa fazer cair por terra o mesmo produto ou serviço oferecido
por seu concorrente; desde que este não prime também pela mesma característica
em seus produtos.
Esta
característica de que falamos e que tanto tem sido aclamada por empresas que,
intimidadas com a concorrência, decidiram imprimir uma nova dinâmica em sua
administração, tem sido apresentada ao público consumidor sob a denominação de qualidade.
E o consumidor,
por sua vez, também tem demonstrado cada vez mais preocupar-se com o que passou
a conhecer como a característica que satisfaz a sua necessidade de forma
confiável, de forma acessível, de forma segura e no tempo certo, isto é, qualidade.
Constatou-se,
pois, que cada vez mais empresas têm procurado introduzir o sistema empresarial
baseado no TQC; por um lado, como mecanismos e valores para conduzir os
funcionários a uma adesão aos valores considerados positivos para uma
administração eficiente. Por outro lado, utiliza os mesmos mecanismos como
instrumentos de persuasão, manipulação e sedução para conduzir o consumidor a
uma adesão aos valores de prestígio e ascensão social tão enaltecidos em nossa
cultura.
Numa análise
semiótica é possível que demonstremos, sob a forma de um octógono semiótico,
aos moldes dos modelos formalizados por C. T. Pais, a axiologia subjacente ao
universo discursivo da administração de empresas, onde o termo qualidade é fundamental para a
explicação de como funciona o sistema empresarial; assim:
Sistema Empresarial |
|||
|
qualidade |
displicência |
||
|
venda |
|
encalhe |
|
|
não-displicência |
não-qualidade |
||
|
Æ |
|||
No sistema
empresarial, num percurso dialético entre duas forças contrárias: qualidade e
displicência, a venda será garantida pelo caminho da qualidade e não-displicência
e, do outro lado, no caminho da displicência e não-qualidade, o produto ou
serviço estará falado ao encalhe.
4. Conclusão: A análise semântico-lexical que conduziu o estudo das combinações em
que entra o termo qualidade permitiu
que se estabelecesse o significado desta lexia no contexto de cada uma das
combinações nesta pesquisa apresentadas, permitindo, ainda, detectar com maior
precisão a ideologia subjacente a este universo discursivo.
Dentro de cada
uma das combinações o termo qualidade,
auxiliado pelos outros lexemas assume, por assim dizer, uma identidade própria
que só poderá ser apreendido no universo discursivo em que aparece.
BIBLIOGRAFIA
CAMPOS,
Vicente Falconi. TQC-controle da
qualidade total (no estilo japonês). 4.ed. Belo Horizonte: Fundação Christiano Ottoni, 1992.
ISHIKAWA,
Kaoru. TQC- “total quality control” -
estratégia e administração da qualidade, São Paulo: IMC Internacional
Sistemas Educativos, 1986.
PAIS, Cidmar
Teodoro. Ensaios-semiótico-lingüísticos,
2.ed., São Paulo: Global,1986.
PORTUGUÊS PARA ESTRANGEIROS: UM ATRAENTE CAMPO DE
TRABALHO
João Luiz Lara Santos da
SILVA[68]
Resumo: Esta comunicação visa a fornecer uma visão dos
procedimentos atuais no ensino/aprendizagem de Português para Estrangeiros, com
a finalidade de levantar dados que propiciem uma análise e reflexão acerca da
necessidade de novas pesquisas na área, tendo em vista a clientela, o curso, a
escolha de material didático e a formação e seleção de professores.
Nesta, vimos que tanto na pesquisa como na formação de
professores de Português para Estrangeiros, há uma lacuna nos cursos de Letras
e uma crescente urgência, bem como um vasto campo para o estudo, ensino e
pesquisa, que possa sugerir a renovação e o aperfeiçoamento do planejamento de
cursos, de materiais, métodos de ensino e formação de professores.
Esta comunicação
visa a fornecer uma visão dos procedimentos atuais no ensino/aprendizagem de
Português para Estrangeiros, a partir de informações coletadas em livros e
revistas publicadas na área, com a finalidade de levantar dados que propiciem a
conscientização e reflexão de coordenadores, professores e pesquisadores de
cursos de línguas estrangeiras para esse novo status da Língua Portuguesa, que
suscita uma necessidade de adequação do processo de aprendizagem e o surgimento
de pesquisas nessa área.
Ressaltamos aqui
os seguintes aspectos de suma importância: a clientela, o curso, a escolha do
material didático e a formação e seleção de professores.
Os cursos são
destinados a alunos, na sua maioria, executivos de diversas nacionalidades.
Muitas donas-de-casa, esposas de executivos, procuram as escolas de Português
(LE). Há também turistas e brasilianistas, que acabam vindo para ficar. A faixa
etária varia entre trinta e cinqüenta anos, mas há algumas escolas que são
freqüentadas, também, por jovens de dezesseis a vinte e quatro anos.
Grande parte dos
interessados vem a serviço de multinacionais, com contrato de dois a quatro
anos. Por serem muito dispendiosos, geralmente os cursos são freqüentados por
pessoas que possuem uma certa cultura e poder aquisitivo maior.
Em geral, os
cursos pretendem proporcionar aos estrangeiros a aprendizagem de nossa língua,
visando a compreensão e expressão oral, em nível de linguagem coloquial.
Todavia, para o
executivo não interessa somente a aprendizagem da linguagem coloquial, uma vez
que ele precisa se expressar dentro da língua padrão, mas também, no caso
específico, estabelecer a compreensão e elaboração de circulares e relatórios,
o que exige o conhecimento da linguagem técnica, que pode ser, para ele, mais
importante. Além disso, a aprendizagem da linguagem culta não pode ser relegada
a um segundo plano.
Constatou-se com
o levantamento dessa pesquisa que muitos cursos possuem material didático bem
flexível, de acordo com a necessidade pessoal do aluno, porém, há ainda muita
falta de critério para a seleção de métodos próprios, sendo ainda tudo muito
experimental. A carga horária varia de escola para escola: de três a sete horas
semanais, divididas em três dias, mas ficando, quase sempre, a critério do
aluno.
As pesquisas
nessa área são necessárias para que, dentre outros elementos, o material
requisitado, elaborado segundo os seus autores, inserido em determinada
abordagem, também possa ser analisado e criticado, tendo em vista o seu
aprimoramento.
Os resultados
contribuirão para a reflexão acerca da metodologia e abordagem empregadas nos
livros didáticos e materiais de apoio (cf. Kunzendorf, 1987) "uma vez que
as falhas estejam no fato de existir pouca teorização a respeito do Português
(LE).
Se considerarmos
que, além de despertar a atenção do mercado turístico, pelos atrativos e festas
que possui, o Brasil tem um forte investimento de capital estrangeiro e, mais
recentemente, com a globalização que vem sendo estabelecida pela nova ordem
mundial, foi instituído o Mercosul, fortalecendo o turismo e o intercâmbio
cultural - econômico, o que faz com que o número de estrangeiros no país
continue a aumentar e, com ele, os cursos de Português para Estrangeiros.
Ao serem
observados os métodos utilizados pela escolas, foi possível constatar que a
maioria dos cursos foram montados sem preocupação com o ensino metódico.
Estamos entendendo o termo "metódico", segundo Halliday (1974),
" como estrutura de organização para o ensino de línguas, que relaciona a
teoria lingüística com os princípios e técnicas pedagógicas". Seguindo o
livro didático ou elaborando o seu próprio material, não levam em conta as
teorias da aprendizagem; sem uma abordagem definida, acabam apontando uma
postura eclética.
Outros dados
relevantes a serem expostos: a maioria das escolas não dá importância para a
formação em lingüística e lingüística aplicada de seus professores. O requisito
de recrutamento na escolha do profissional fica mais em nível de ele ser
falante nativo com formação universitária, não se levando em conta o seu
preparo ou embasamento teórico, que deve acompanhar o seu domínio lingüístico
da língua alvo. Psicólogos, geólogos, estudantes de teologia, entre outros,
estão desempenhando a função de professores de Português (LE), o que é uma
insensatez, pois essa função não deveria ser ocupada por um licenciado em
Letras, cujo ofício é lecionar essa língua e sua respectiva literatura?
Com isso, o
estrangeiro enfrenta sérios problemas: aprender uma língua estrangeira e todo
contexto em que ela está inserida é difícil, o que se acentua ainda mais quando
se defronta com a falta de preparo do professor, que, muitas vezes, não possui
nem mesmo o domínio operacional dos padrões fônicos e estruturais do Português,
que se constituiria no mínimo exigido como qualificação para o seu desempenho
profissional.
Desta forma,
vimos que, tanto na pesquisa como na formação de professores de Português (LE),
há uma lacuna nos cursos de Letras e uma crescente urgência, bem como um vasto
campo de trabalho para o estudo, ensino e pesquisa, visando à renovação e o
aperfeiçoamento dos planejamentos de cursos, de materiais, métodos de ensino e
avaliação, o que nos leva a refletir sobre um nível maior: a abordagem de
ensino do Português (LE).
Concluímos que,
para que ocorram reformulações e adequações no processo de ensino/aprendizagem,
metodologia e escolha ou produção de materiais didáticos de Português (LE), é
preciso que haja uma conscientização e reflexão acerca da falta de teorização e
pesquisas nessa nova área, que levará à ascensão e consagração desse atraente
campo de trabalho.
BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA
FILHO, J.C.P. et LOMBELLO, L.C. O ensino
de Português para Estrangeiros. Campinas: Pontes, 1989.
__________.
Dimensões comunicativas no ensino de
línguas. Campinas: Pontes, 1993.
FONTÃO
DO PAROCÍNIO, E. M. Repensando o conceito
de competência comunicativa no "aquecimento" de aula de Português e
Língua Estrangeira: uma perspectiva estratégica. Dissertação de Mestrado.
Campinas: Instituto de Estudos Lingüísticos - Universidade de Campinas, 1993.
HALLIDAY,
M.A.K., Mcintosh A. & Strevens, P. As
Ciências lingüísticas e o ensino de línguas, Petrópolis: Vozes, 1974.
KUNZENDORF, J.
C. O ensino/aprendizagem de Português
para Estrangeiros adultos em São Paulo (Reflexões - Considerações - Propostas). Tese de Mestrado. São Paulo:
Pontíficia Universidade Católica,
1987.
A ESTILÍSTICA DA DESCONSTELIZAÇÃO:
LEITURA DO POEMA “PENSÃO FAMILIAR”, DE MANUEL BANDEIRA
Marcos
Antonio Martiliano SILVA[69]
Resumo: Aproveitando algumas das contribuições fornecidas
pelos estudos estilísticos para uma abordagem menos subjetiva do texto
literário, em especial do texto poético, a presente comunicação propõe uma
leitura, entre as diversas possíveis, do poema "Pensão familiar", de
Manuel Bandeira. Nesta leitura, em que se busca ressaltar o caráter desconstelizador (ver nota i) do estilo
bandeiriano, o intuito final é apontar a influência da infância, enquanto
momento de amenidades e alegrias, sobre a cosmovisão do homem e do poeta Manuel
Bandeira.
PENSÃO FAMILIAR
Jardim
da pensãozinha burguesa.
Gatos
espapaçados ao sol.
A
tiririca sitia os canteiros chatos.
O
sol acaba de crestar as boninas que murcharam.
Os
girassóis
amarelo!
resistem.
E
as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.
Um
gatinho faz pipi.
Com
gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre
cuidadosamente a mijadinha.
Sai
vibrando com elegância a patinha direita:
-
É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.
Um poema que
leva um título como “Pensão Familiar” parece
convidar a apenas mais uma leitura cômoda, amena, sem maiores exigências de
elocubrações filosóficas por parte do leitor, visto que, convencionalmente,
tudo o que qualificamos como familiar
implica assunto em princípio não estranho ao senso comum, ao conhecimento
geral.
Certíssimo.
Todavia, é justamente a forma como Bandeira se apropria do corriqueiro, dos
elementos familiares de todo dia,
expressando-os em um estilo próprio, que faz de sua poesia uma arte a um só
tempo simples e profunda, “familiar” e surpreendente, o que leva Arrigucci Jr.,
em seu “Humilde cotidiano de Manuel bandeira”, a falar de uma simplicidade difícil de entender, em
relação ao estilo bandeiriano.
O poema todo se
constrói em torno do relato das cenas observadas no jardim: gatos ao sol,
tiririca nos canteiros etc. Mas, em Bandeira, a simplicidade do estilo oculta
mais do que uma aparente atitude de embevecimento diante da suposta poesia presente na natureza.
A escassa
utilização de verbos, e a conseqüente predominância de frases nominais, nos
primeiros oito versos do poema, sugere uma certa monotonia predominante no
jardim[70],
onde as personagens parecem não fazer nada além daquilo que a "sociedade local" espera delas. Observamos
assim a desconstelizaçãoi dos tradicionalmente poéticos vocábulos do campo semântico de
natureza (jardim, animais, flores,
sol etc.), uma vez que o eu-lírico os encara como seres tão mecânicos e burgueses em suas atitudes quanto,
talvez, os próprios homens da outra sociedade
burguesa, representada no poema pela pensão
familiar.
Resultante do
processo sintático empregado, que influi na pontuação, também o ritmo desse
primeiro momento do poema contribui para reforçar o quadro de monotonia do
jardim desconstelizado de Bandeira.
Nesse âmbito, a
predominância dos períodos curtos e das frases coordenadas, para falarmos em
linguagem prosaica, com utilização do ponto final após cada um dos versos
iniciais, imita a composição de uma receita, esta porventura estando a indicar
que os ingredientes de um jardim de pensãozinha
burguesa são sempre os mesmos, sem maiores novidades: “gatos espapaçados ao
sol”, “tiririca [que] sitia os canteiros...” etc.
No verso
seguinte, que se desmembra em mais outros dois, há uma ilusão de quebra dessa
monotonia, introduzida pela sutil mudança de ritmo - um verso sem pontuação,
outro finalizado por exclamação e o último novamente encerrado pelo ponto
final. Porém, no nível lexical, atentemos para o emprego do vocábulo amarelo (v.6), que parece não exercer a
função de, como aparenta, caracterizador do vocábulo girassóis, pois aparece isolado do mesmo e na forma singular, não
correspondendo, portanto, à forma plural girassóis.
Qual seria,
então, a função deste sexto verso na significação geral do poema?
Aparecendo
isolado e em sua forma singular, não funcionando, assim, como caracterizador de
girassóis, nos é possível inferir que
amarelo, sucedido do ponto de
exclamação, não pretende ressaltar a vivacidade da cor do girassol, mas, ao
contrário, sintetizar as impressões do observador em relação a todos os
elementos até então abordados: seres de
uma acentuada opacidade, de uma gritante amarelidão.
Funciona, assim, como uma espécie de grande metáfora do jardim (este sim
estando na forma singular) desses primeiros oito versos de “Pensão Familiar”.
Nessa situação,
apenas o verso sétimo, constituído pelo vocábulo resistem, relaciona-se com o verso quinto, “os girassóis”, como se
o verso sexto, interposto entre ambos, significasse uma pausa para a
manifestação da surpresa do eu lírico diante do amarelo do girassol, cor essa
que percebe, de repente, dar o tom a
todos os elementos que até então observara no jardim.
Entretanto,
ainda que tenha por predicado o verbo resistir (v.7), os girassóis não diferem dos outros elementos até
então figurados no poema. Resistem,
no contexto de “Pensão Familiar”, não implica uma atitude diferenciada dos
girassóis, mas apenas particulariza a ‘função social’ que lhes é característica no jardim: a de estar sempre em
pé, de resistir, apesar do elevado
tamanho que lhes enverga (a disposição gráfica dos versos 5, 6 e 7, dispostos
de cima para baixo, imita essa (de)cadência que, em outro âmbito, está também
presente na escala dos valores burgueses). Tal interpretação encontra reforço
ainda no retorno ao emprego do ponto final, pois seria bem diferente se o poeta
utilizasse, por exemplo, as reticências, que dariam a idéia de uma resistência contínua...
Encerrando essa
primeira estrofe, ou primeira parte do poema, aparece o verso oitavo, cuja
constância no uso das vírgulas lhe confere, contudo, um ritmo menos sutilmente
pausado do que enfastiadamente lento e monótono, imitando talvez a vidinha
burguesa das próprias dálias, em seus eternos estados de rechonchudas, plebéias e
dominicais; tal impressão de marasmo é fortalecida, principalmente, pelo
emprego deste último qualificativo, dominical,
cujo sentido evoca a idéia de descanso, de inatividade (já que o domingo é o
dia biblicamente consagrado ao repouso).
Assim, desconstelizado nas mãos do poeta, o
jardim da pensãozinha burguesa, enquanto espaço comum a um grupo de seres vivos
e constituindo portanto uma espécie de grupo social, parece tão destituído de
encantos quanto a vida da própria sociedade burguesa formada pelos habitantes
da pensão, a exemplo de outra célebre pensão da literatura, a da “Madame
Vauquet” criada por Balzac no Père
Goriot.
Nessa
perspectiva, considerando-se a localização tradicional dos jardins
residenciais, à frente das casas, podemos pensar que, provavelmente, o
cotidiano do jardim de “Pensão familiar” seja nada mais do que o espelho do
cotidiano dos próprios moradores dela.
Diante disso,
temos que o sufixo -inha, utilizado
em pensãozinha, não guarda nenhuma
carga de afetividade, como o poderia sugerir em outros contextos - até mesmo no
próprio poema em questão, como veremos adiante -, mas, antes, atribui a esse
termo um tom depreciativo.
Também a
utilização do adjetivo familiar,
presente no título e que caracteriza o tipo de pensão de que fala o poema, nele
adquire tom igualmente depreciativo, na medida em que, de acordo com o até
então observado, deve ser lido no sentido pejorativo de coisa sem novidade, destituída de grande interesse, tão surpreendente
quanto uma missa de domingo.
Mas, gracioso e
bonachão, eis que surge alguém capaz de alterar o clima de monotonia
predominante no jardim: um gatinho [que] faz pipi. (v.9).
Recorrendo a uma
imagem simples, Bandeira torna o pipi
do gatinho elemento de considerável peso para a compreensão do poema, uma vez
que tal gesto acarreta uma mudança no quadro até então evocado. Neste sentido,
é mister observar, em relação ao vocabulário empregado, o aparecimento de um
maior número de verbos propriamente indicadores de ação, entendida esta última
como "movimento físico"; o
gatinho faz pipi, encobre a mijadinha e sai vibrando as
patinhas, em oposição às outras personagens do jardim, que, como foi visto, não
têm atribuído a si praticamente nenhum verbo indicador de movimento físico.
Fazendo pipi com
gestos de garçom de restaurant-Palace (v.l0) e ...encobrindo cuidadosamente
a mijadinha (v.ll), o gatinho desta segunda estrofe satiriza os códigos e
ícones da sociedade burguesa, na medida em que, numa atitude comicamente
exagerada, os emprega até mesmo no íntimo momento da mijadinha.
A afetação
presente no termo garçom de
restaurant-Palace (enfatizada no emprego proposital da grafia francesa em restaurant) refere-se, assim, não ao
gatinho, cuja elegância, aliás, nos soa bastante natural, mas indica, antes, a
superficialidade de uma sociedade marcada pela mecanicidade dos gestos.
Também o ritmo,
nesta segunda parte de “Pensão familiar”, vem ao encontro dessa quebra de
monotonia, introduzida no poema pela nova personagem; dos constantes
pontos-finais da primeira estrofe, esta segunda os reduz: apenas três, ou seja,
metade do número anteriormente empregado. Há ainda a utilização dos dois
pontos, introduzindo a pausa que sugere expectativa... E é justamente após esta
pausa que teremos a grande pista para a compreensão do poema.
Saindo do
discurso direto até então empregado, para assumir diretamente a voz no último
verso do poema, o eu-lírico torna duplamente clara a situação privilegiada do
gatinho, visto que não só atribui a este último a única frase positivamente
qualificativa do poema, como demonstra-se ele mesmo embevecido pela travessura
do gato-criança. Tal situação é denunciada pela súbita verbalização do que, até
então, parecia não ter passado de pensamentos de mero observador silencioso; é
como se, de repente, tivesse “pensado alto”.
Note-se, neste
sentido, a retomada do prefixo -inho,
desta vez empregado no seu sentido positivo, como indicador de afetividade,
qualidade esta que, por sua vez, não caracteriza somente o “gatinho”, mas a
própria idade infantil em si, por ele simbolizada.
Assim, esta
segunda estrofe de “Pensão familiar”, tomando-se em conta as observações
biográficas feitas pelos estudiosos de Bandeira - que lhe apontam a infância
como lugar de encantos e alegrias - exemplifica o trabalho do poeta com uma de
suas características temáticas mais marcantes: a infância como único lugar
possível de atitudes grandiosas e elegantes.
Nessa
perspectiva, é patente a ironia de Bandeira em “Pensão familiar”, enquanto
denuncia que o ser adulto e - permito-me acrescentar a partir de então - já
instalado nos padrões da vida burguesa, jamais será capaz de encarar o mundo da
mesma forma naturalmente encantadora com a qual o encarara nos tempos de
criança, a menos que... e o eu lírico da segunda estrofe do poema aponta a
solução - este homem se disponha a elevar os olhos para a graça presente nos
gestos infantis e, quem sabe, até mesmo reaprender
a viver a partir deles.
Finalmente, as
breves observações ora realizadas não pretenderam constituir a leitura do poema “Pensão Familiar”,
mas, antes, demonstrar como o estudo dos recursos estilísticos, sem deixar de
ter fundamento sólido, justamente porque baseado no próprio texto, pode
apontar, na criação literária, outras e diversas leituras, as quais porventura
poderiam ser limitadas por uma abordagem meramente temática.
ARRIGUCCI JR., Davi. O humilde cotidiano de Manuel Bandeira. In Enigma e comentário; ensaio sobre
literatura e experiência. São Paulo: Cia. das Letras, l987.
CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem
& outras linguagens: ensaios de teoria e crítica literária. 4.ed. São
Paulo: Perspectiva, l992.
BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. In: Estrela
da vida inteira.. São Paulo: Cia. das Letras, l990.
MARTINS,
Nilce Santana. Introdução à Estilística: a
expressividade da língua portuguesa. São Paulo: T.A.Queiroz/Edusp, l989.
O CONHECIMENTO LINGÜÍSTICO
DO PROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA NA 8ª SÉRIE, DO MUNICÍPIO DE ASSIS, SÃO PAULO
Rosângela A. Ferreira SILVA[71]
Resumo: A presente pesquisa fez parte da dissertação de
mestrado intitulada “Aprendendo através da Produção de texto: um ensino com
coerência”.
Foram
visitadas vinte escolas no município de Assis, onde trinta e cinco professores
foram entrevistados, com o objetivo de verificarmos se esses professores faziam
uso de orientações lingüísticas voltadas ao ensino de língua materna.
Fizemos este
trabalho de acordo com os fundamentos da pesquisa qualitativa, uma vez que
pretendíamos obter os dados através de contato direto entre pesquisador e
pesquisados no seu ambiente natural, a escola. Procuramos retratar as perspectivas,
os objetivos, os atos, enfim, tudo o que envolve diretamente o professor na
sala de aula, a fim de buscarmos elementos que poderiam ajudar na nossa
investigação: a utilização das orientações lingüísticas no ensino de Língua
Portuguesa.
Erickson (in
Cançado, 1994), fala de dois procedimentos de obtenção de dados para uma
investigação: olhar e perguntar. “Olhar” é ir à procura dos dados de
investigação através de métodos de observação; “perguntar” é obter dados
através de questionamentos feitos aos informantes ou através de documentos
escritos que mostrem respostas para esses questionamentos. Esse método consiste
na utilização de entrevistas, estudo de documentos, questionários, diários do
professor, planos de aula.
Assim, na
pesquisa qualitativa, “em lugar dos questionários aplicados a grandes amostras,
ou dos coeficientes de correlação, típicos das análises experimentais, são
utilizadas mais freqüentemente neste novo tipo de estudo a observação
participante, que cola o pesquisador à realidade estudada; a entrevista, que
permite um maior aprofundamento das informações obtidas; e a análise
documental, que complementa os dados obtidos através da observação e da
entrevista e que aponta novos aspectos da realidade pesquisada” (Lüdke e André,
1986, p.09).
Para este artigo
detivemo-nos mais nas entrevistas, procurando mostrar, através dessa abordagem
de pesquisa, como se dá o conhecimento lingüístico do professor, além de saber
também pontos como a utilização ou não da proposta curricular e a opinião
desses professores sobre a situação atual do ensino de Língua Portuguesa.
1- Proposta Curricular
O Governo do
Estado de São Paulo lançou, em 1991, um programa de Reforma do Ensino Público
com o intuito de recuperar a Escola Pública e a qualidade de ensino oferecido à
sociedade. Como parte desse programa, desenvolveram-se propostas curriculares
para o ensino do 1º grau, as quais deveriam subsidiar a ação docente e
estabelecer objetivos e conteúdos mínimos a serem desenvolvidos pelos
professores e apreendidos pelos alunos.
Assim, incluímos
em nosso roteiro um tópico para que falassem da Proposta Curricular para o
Ensino de Língua Portuguesa, uma vez que sabemos que ela está diretamente
baseada nas orientações lingüísticas voltadas ao ensino da Língua Portuguesa[72].
Dos professores
entrevistados, 57% afirmaram seguir a Proposta Curricular; 25,7% disseram que
seguem a Proposta mas não totalmente; 17,1% afirmaram que tentam aplicar a
Proposta, mas que é muito difícil conciliar tudo numa sala de aula.
Ao comentar
sobre a Proposta Curricular, suas orientações e/ou conteúdo, os professores
diziam que tinham dificuldades na sua aplicação, uma vez que, ao contrário dos
livros didáticos que “pelo menos garantem conteúdo ao aluno”, a Proposta
Curricular deixa-os na dúvida, por exemplo, de quando e o que corrigir. Sendo a
Proposta Curricular uma orientação geral para o Estado de São Paulo, ela se
mostra muitas vezes “fora da realidade do aluno”. A orientação de trabalho com
o texto, apresentada na Proposta Curricular, causa reclamações de alunos que
“pedem gramática”, “eles querem matéria”, ademais, “o pai acha que o professor
fica enrolando a aula, se trabalha só com a linguagem”.
De um lado,
alguns professores se mostram veementes. Para estes, “o ensino precisa ser
radicalmente mudado, a proposta tem que deixar de ser proposta e ser
obrigatória”, ou que “só é possível ver o trabalho da proposta se este trabalho
for aplicado desde a alfabetização”. Por outro lado, há aqueles que pensam que
“a Proposta vê um aluno ideal e não real”; “o trabalho depende da classe: não é
toda a sala que rende igual”. “A Proposta fica furada”.
2- Conhecimento Lingüístico
Aprofundando
mais em nossa investigação, buscamos saber dos professores sobre seu
conhecimento lingüístico (se têm conhecimento de teorias lingüísticas aplicadas
ao ensino, se fazem uso destas teorias, e se elas ajudam no ensino de
Português).
Dos vinte e nove
informantes (82.8%) que afirmaram conhecer as teorias lingüísticas voltadas ao
ensino de Português, três negaram aplicar esses conhecimentos ao ensino de seus
alunos, ao passo que os demais, vinte e cinco, alegaram fazê-lo.
Aqueles que
negaram usar das teorias lingüísticas, se justificavam dizendo que “dar aula
tradicional já é difícil, tentar inovar é mais ainda”. Outros professores
diziam tentar usar as teorias que aprenderam na Faculdade, porém faltava-lhes
conhecimento mais profundo:
“uso um pouco das
teorias, conforme vejo o que dá certo na prática, se ficar complicado eu paro”.
“tenho pouco
conhecimento das teorias lingüísticas aplicadas ao ensino, mas aplico conforme
a bagagem que trago da Faculdade. Não dá para aplicar tudo”
Por outro lado,
há aqueles que achavam os estudos lingüísticos “importantes para o embasamento
teórico do professor, entretanto o professor tem que dosar para passar ao
aluno”; ou, ainda, que “algumas teorias têm resultado em sala de aula, mas
outras estão muito distantes da realidade”.
Dos 86.2% dos
informantes (25) que afirmaram empregar as teorias lingüísticas, apenas 23.3%
souberam explicar como usam dessas teorias. Isto é, apenas 14.28% (5
informantes) dos 35 professores pesquisados usam, com conhecimento e segurança,
da Lingüística no ensino de Língua Portuguesa.
Três informantes
(10,4%) relataram que sabiam da existência destas teorias, entretanto, admitiram
que precisariam de um maior conhecimento delas para poder aplicá-las. E, aí,
reclamaram, os professores da rede particular, que a UNESP (Câmpus de Assis) só
divulga os cursos para as escolas públicas; e os professores da rede pública
queixaram-se dos diretores de suas escolas por não os dispensarem para os
cursos, de estes serem pagos e da indisponibilidade de tempo para
freqüentá-los.
3- Opinião sobre o ensino de Língua Portuguesa
Ao falar de como
anda o ensino de Português, a maioria dos professores relatou que “o ensino
está um caos”. Os professores justificavam sua opinião, ora centrando o
problema do ensino na condição de trabalho: “teria que ter formas e outros
materiais para o professor trabalhar”; ora admitindo o seu despreparo e denunciando
o desinteresse da clientela: “o problema começa na falta de preparo do
professor, falta de interesse do aluno”, “o ensino está péssimo: o professor
tem que ser aperfeiçoado constantemente, não há tempo para o professor
estudar”.
Para reverter
essa situação, continuam os professores:
“o ensino deve voltar
ao que era antigamente, tem que ser rigoroso sim. Não tem sentido o aluno
escrever do jeito que quer, para depois ser cobrado sobre a norma culta”
“acho que os alunos se
saíam melhor e levavam mais a sério com a proposta tradicional”
Todavia, não são
apenas a clientela e os professores os responsáveis pela má qualidade do ensino
de Português. Na opinião destes, também o governo e a sociedade têm sua parcela
de culpa:
“o ensino está ruim. O
governo não oferece nada de novo ao aluno e ao professor. O aluno não vê
proveito em tudo aquilo que aprende. Há um desinteresse total na educação: o
professor ganha pouco, o aluno não tem interesse, não tem quadra; a escola não
tem aparência, não tem dinheiro para reformas”.
“o ensino precisa ser melhorado urgente. Houve uma
queda do conteúdo em virtude de uma falta de envolvimento familiar no ensino.
Os pais deveriam valorizar mais o ensino do filho. As crianças, hoje, saem com
o mínimo do mínimo. Se o professor reprova, a Delegacia aprova.”
Os professores
apresentam uma série de soluções que consideram fundamentais para o ensino de
Língua Portuguesa: investir mais no Ciclo Básico, pois a mudança deve ocorrer
nas “bases” da educação; levar em conta que a clientela é diversificada;
oferecer aprimoramento constante aos professores; estabelecer uma “ponte” entre
o ensino tradicional e a nova proposta; existir maior interdisciplinariedade,
entre outras.
Considerações Finais
Analisando os
dados obtidos de nossos informantes, verificamos que as suas dúvidas,
indagações, queixas, e a própria prática pedagógica eram semelhantes e
recorrentes. Cada um, à sua maneira, reconheceu igualmente a necessidade de um
conhecimento mais profundo dessas teorias. Conhecimento esse que os professores
não obtiveram na Universidade e que agora lhes faz falta em seu ofício.
As entrevistas
sugerem, contudo, que usam, ainda que em parte e muitas vezes não sabendo que o
fazem, de orientações lingüísticas voltadas ao ensino de Língua Portuguesa.
Tal uso,
entretanto, apresenta-se, em grande parte, de maneira equivocada, indicando uma
verdadeira deturpação das orientações lingüísticas. Como não domina as teorias
que aprendera nos bancos acadêmicos, durante sua formação, ou através deste ou
daquele curso que eventualmente freqüentara, o professor sente-se incerto
quanto à sua eficácia, deixa-as de lado, voltando-se ao ensino da gramática
tradicional.
Perdido no
dilema entre o ter de ensinar conforme um planejamento que lhe é imposto pela
Escola e querer ensinar sob orientações lingüísticas mais modernas, as quais
muitas vezes não domina, o professor recorre ao livro didático, seja como
material de consulta, seja adotando-o em sala de aula.
Daí, pensamos
que se faz urgente uma reflexão por parte da Universidade quanto à formação
desses futuros professores visando entender e reverter o atual quadro escabroso
com o qual nos deparamos nessa pesquisa.
Por fim,
acreditamos, ainda, que cabe à Universidade buscar meios mais eficazes que
permitam a ponte entre o conhecimento científico e a formação daqueles que
serão futuros professores de nossos jovens, os futuros alunos dessa mesma
Universidade.
ALMEIDA, N. M. de. Dicionário de
Questões Vernáculas. São Paulo: Caminho Suave, 1981.
BIASOLI-ALVES, Z. M. M. & MARTURANO, E. M. Problemas e Soluções do Método de Observação no Estudo da Interação
mãe-criança. Ribeirão Preto: FFCLRP-USP, 1977.
BIASOLI-ALVES, Z. M. M. Entrevista:
Formato e Análises. Ribeirão Preto: FFCLRP-USP, s/d.
CANÇADO, M. Um estudo sobre a
Pesquisa Etnográfica em Sala de Aula. Campinas: ALAB, 1994.
CARVALHO, J. A. Por uma Política
do Ensino da Língua. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.
CENP/SE- Proposta Curricular Para
o Ensino de Língua Portuguesa: 1º grau. 4.ed. São Paulo: SE, 1992.
LÜDKE, M. e ANDRÉ, M. E. D. Pesquisa
em Educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.
PRODUÇÃO DE TEXTO: CORREÇÃO OU DESQUALIFICAÇÃO? [73]
Rosângela
A. Ferreira SILVA[74]
Resumo: O presente trabalho investigou como os professores da
rede pública e particular do município de Assis, São Paulo, corrigem as
produções de textos dos alunos de 8ª série de 1º grau.
Verificou-se que as "correções"
restringiam-se a aspectos formais e, muitas vezes, desqualificavam a produção
textual do aluno.
Com base nas orientações
da Lingüística Textual, que postula que todo emissor e receptor possui
estruturas básicas da língua para construir enunciados coerentes ou interpretar
textos que lhes são transmitidos, propusemo-nos a analisar produções de textos
de alunos de 8ª série do 1º grau, de três escolas, uma particular, uma pública
central e uma pública de periferia, atentando para como essas produções eram
corrigidas.
Segundo
Charolles (1988) existe uma “competência textual” em cada um de nós e essa
competência deve ser interpretada por cada leitor/ouvinte para que o texto faça
sentido, isto é, quando buscamos a interpretação de um texto temos que ter em
mente que ele tem um sentido próprio e devemos lançar mão de todos os recursos
para que o possamos entender.
O autor, citado
acima, acredita também que o professor, muitas vezes, faz correções sem levar
em conta a competência textual de seus alunos. O professor não deve
“desqualificar” o texto de seu aluno como incoerente ou sem sentido, pelo
contrário, deve buscar, nas experiências de vida e no contexto sócio-econômico
e familiar de seu aluno, fundamentos para encontrar a coerência de seu texto.
Além disso, não
se deve riscar o que torna o texto falsamente incoerente, mas sim mostrar ao
aluno meios para tornar suas idéias mais próximas de quem lê, levando-o a
entender que o que escreveu ou disse não está errado, apenas pode não estar
claro para quem vier a interpretar seu texto.
Ao examinarmos
as redações, levantamos alguns aspectos qualitativamente significantes,
presentes nas correções. De modo geral, essas correções se prendiam à forma, à
linguagem, ou faziam referências diretas ao aluno. As correções mais freqüentes
eram quanto à grafia, pontuação, acentuação, estética do texto etc., e se davam
na forma de rabiscos, muitas vezes de significados incertos, e pequenas
anotações (na margem ou no fim das redações) sobre a “incoerência textual”.
Freqüentemente,
as correções não propunham nenhum tipo de solução aos problemas apresentados
pelos alunos e, quando faziam, eram de modo indireto e pouco preciso.
Invariavelmente, tais correções pouco ou nada traziam de informações que
permitissem aos alunos entender por que ou em que erraram.
Por outro lado,
a análise das redações nos mostrou que aspectos básicos da orientação lingüística
quanto à produção de textos não eram levados em conta. A logicidade do aluno,
expressa a seu modo, com um começo, meio e fim, era, invariavelmente, ignorada
pelo professor; este não percebia que o aluno se valia, por exemplo, da coesão
referencial (isto é, utilizava a retomada de um elemento, fosse através da
pronominalização, fosse através da sinonímia); não atentava para o fato de o
aluno dar continuidade às idéias ou temas propostos; não percebia que o aluno
narrava, descrevia e dissertava, conforme o que lhe era pedido.
Tomemos, como
exemplo, alguns extratos dessas redações.
Pedido
que fizesse uma narração sob o tema “Quando eu fui professor por um dia”, o
aluno dá à sua redação o título de “O dia da Vingança”. A redação apresenta: 1)
introdução- “(...) Era uma manhã ensolarada. Aquele dia seria a minha grande
vingança. Eu iria dar aulas para os meus pais”; 2) desenvolvimento- “(...)
Comecei a aula, que mais parecia um interrogatório. Eram perguntas idiotas
feitas pelos meus pais e respostas mais idiotas ainda, dadas por mim”; 3)
conclusão- “(...) Até que eles se entregaram, e só faltaram beijar meus pais”.
Observamos aqui que o aluno escreve pais,
porém, levando em consideração o contexto narrado, depreendemos que o aluno
quis dizer pés, da expressão beijar os pés. Portanto, descrevendo a
submissão dos pais (“só faltaram beijar meus pés”), o aluno conclui a sua
proposta (“o dia da vingança”), sendo coerente com o tema (“quando eu fui
professor por um dia”), já que a vingança se dá em uma aula.
Parecendo
desconsiderar tal coerência, o professor pergunta da existência do parágrafo de
conclusão (“E o parágrafo da conclusão?”). Tal observação, isolada, no final da
página, não oferece sequer uma pista do porquê de sua existência, embora
possamos inferir que o professor quisesse apontar ao aluno que o texto poderia
não se apresentar coerente para o leitor. Outra anotação do professor, agora no
início da página, refere-se à forma da redação (“Pule sempre uma linha do
título à introdução da red.”).
Por
fim, desta mesma redação, colhemos, como outro exemplo da competência textual
do aluno, o uso que este faz da coesão referencial: minha mãe- ela; meu pai-
ele; eu o interrompi. Em toda essa redação, portanto, vemos exemplos que
demonstram a qualidade da produção textual do aluno bem como a possibilidade de
o professor oferecer pistas que o levem a ampliar seu registro lingüístico, sem
desqualificar seu texto.
Em outra
narração, de mesmo tema, o aluno apresenta um texto coerente com o tema
proposto (Quando eu fui professor por um dia), e com o título que escolhe, “Um
dia de luta”: 1) introdução: “Fui convidada para dar aula em uma escola
particular. Me preparei para um dia difícil, era no período da manhã”; 2)
desenvolvimento: “Ao entrar na sala de aula, me apresentei aos 78 alunos que
estavam presentes (...) A aula ia ser de psicologia. Resolvi levá-los para o ar
livre (...) Comecei a conhecer o problema de cada um conforme eles iam me
contando (...) Os mais revoltados não falavam nada”; 3) conclusão: “Eu estava
gostando daquele único dia de professora. A despedida foi calma e
tranqüilizada”.
Através de uma
anotação no fim da página, o professor faz a seguinte observação: “(...) o
parágrafo de desenvolvimento foi muito longo, e ainda por cima deveria ter
desenvolvido outro parágrafo no desenvolvimento ou, e ainda melhor, ter
dividido adequadamente suas idéias em outros SS”. Com esta observação, pouco é
oferecido ao aluno quanto ao modo pelo qual ele poderia melhor reestruturar
suas idéias, além disso, o professor perdeu a oportunidade de tratar do
registro escrito padrão, que possui regras preestabelecidas (por exemplo, a
colocação de pronome). Ao fazer essa observação, o professor não indica onde
cada uma dessas idéias começa, o que poderia ter feito, simplesmente exemplificando
no texto “aqui está o parágrafo de introdução, esta idéia pode ser um parágrafo
de desenvolvimento, esta outra idéia compõe um outro etc”. Para tanto, bastaria
ao professor reconhecer do aluno a logicidade e continuidade de suas idéias,
embora estas não estivessem desenvolvidas em parágrafos diferentes.
O professor não
faz nenhuma observação quanto ao parágrafo de conclusão, no entanto, ele
poderia ter-se valido deste parágrafo, por exemplo, para ensinar ao aluno a
funções do gerúndio e do particípio. Escreve o aluno: “Eu estava gostando
daquele único dia de professora. A despedida foi calma e tranqüilizada”.
Entendemos, aqui, acompanhando a logicidade do texto, que o aluno pretendia
concluir: a) que ele se despediu dos alunos; b) que gostou de ter dado aula (e.
g., “A despedida foi tranqüila e eu gostei daquela experiência”). Fazendo isso,
o professor poderia ter mostrado que em “situações acabadas” usa-se o pretérito
perfeito, enquanto o gerúndio se presta a descrever ações contínuas. Ademais, o
professor teria a oportunidade de apontar ao aluno a existência de idéias
pleonásticas, calma e “tranqüilizada”, salientando que esta última não foi
empregada na sua forma padrão, tranqüila.
De outra
redação, podemos retirar o seguinte trecho, que ilustra como o professor
geralmente corrige a produção textual de seus alunos:
“A
adolescência para mim é você curtir, mas como eu não posso curtir muito, porque
meus pais não me deixam eu aproveitar minha adolescência, eles acham essa fase
muito difícil na vida da gente”
O professor coloca um ponto de interrogação na margem esquerda da redação e insere “não aproveito” na frase do aluno, a qual passa a ter a seguinte redação: “meus pais não me deixam eu não aproveito minha adolescência”. O professor acrescenta, ainda, ao pé da página, a observação “muito confusa!? e sem sentido”.
Percebemos que o
professor deixa igualmente “muito confusa” a frase do aluno, não solucionando o
problema ou não lhe mostrando como alcançar o “sentido”.
Se, em sua
observação, o professor revelasse ao aluno que nesse parágrafo há problemas de
pontuação, de pleonasmo (me, eu), de falta da oração do segundo período (a
oração “mas como eu não posso curtir muito...”, não tem continuidade), de
interferências da língua oral na escrita (“a adolescência para mim é você
curtir..”), tal atitude poderia facultar-lhe não só o aprendizado de coesão e
coerência, mas também, de gramática, pontuação etc, que o ajudariam neste
intento.
Assim, poderia,
o professor, auxiliar o aluno a reescrever sua frase: “A adolescência para mim
é curtir, mas como não posso curtir muito, porque meus pais não deixam, eu . .
.”
Não precisaria,
como vemos, que o professor reformulasse todo o parágrafo do aluno, seja porque
gastaria muito tempo (o que o professor não tem) para corrigir as redações,
seja porque o intuito da correção é levar o aluno, paulatinamente, à escrita
padrão, sem desqualificar-lhe as idéias ou negar-lhe o registro.
Em suma, das 121[75]
redações que compuseram nosso corpus
de pesquisa, podemos destacar que: 1) traziam, freqüentemente, correções
ortográficas; 2) estampavam grifos, pontos de interrogação e exclamação em suas
margens; 3) apresentavam observações que, por estarem desvinculadas do texto,
não trazendo indicações, soluções ou explicações sobre onde ou em que residiam
as “confusões” ou “erros” do aluno, pouco ou nada contribuíram para o ensino da
escrita padrão e para a estruturação lógica do texto. Essas observações,
geralmente, desqualificavam a produção textual do aluno; desconsideravam seu
registro, sua noção de coerência e faziam referências diretas à pessoa do
aluno, em vez de ensinar-lhe a redigir.
Considerações Finais
Percebemos, das
observações e da análise das redações que os professores se restringem a usar a
produção textual para a aferição de notas (a redação é sinônimo de prova), não
dedicam tempo às discussões sobre o tema da redação, e nem elas são usadas para
o ensino da coesão e coerência. Tais práticas contradizem o relato desses
professores.
Outra
contradição reside no fato de que os professores dizem fazer uso, no ensino da
redação, de textos que são interpretados, discutidos e depois reproduzidos — o
que não foi confirmado pela observação em sala de aula — denotando, assim, que
os professores até sabiam das orientações lingüísticas, porém esse saber não
garante uma atuação eficaz, clara evidência da dificuldade de conciliarem
teoria e prática lingüística.
Acreditamos que
cabe à Universidade buscar meios mais eficazes que permitam a ponte entre o
conhecimento científico e a formação daqueles que serão futuros professores de
nossos jovens, os futuros alunos dessa mesma Universidade.
Ao buscar esses
meios, a Academia deveria, por exemplo, propiciar também um ensino sólido da
Gramática Tradicional, juntando a esta, como sugere Bechara (1985), uma
“educação lingüística”.
Esse ensino,
aliado ao próprio ensino de uma Lingüística teórica e prática, permitirá ao
professor compreender os “erros” dos alunos, levando-os (através de sua
produção textual com um ensino coerente) a alcançar o registro padrão, o qual,
além de ser seu direito, será mais um instrumento para fortalecê-los na luta
por uma igualdade social, econômica e política, perante a classe dominante.
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Rosangela
Villa da SILVA[76]
Resumo: Estudo desenvolvido com alunos de 4as. e 8as. Séries de escolas
públicas e particulares de Corumbá-MS., que teve por objetivo verificar a
produção dos ditongos decrescentes, bem como a redução dos mesmos, em
atividades orais e escritas, por esse tipo de falante especificamente.
Os ditongos
originados de uma seqüência vogal + semivogal, classificados como ditongos
decrescentes, apresentam, no português do Brasil, um elevado grau de redução na
modalidade oral da língua, comum aos brasileiros.
Pretendemos
aqui, por meio de um estudo realizado com alunos de 4ª a 8ª séries de escolas
particular e pública, fazer um levantamento acerca da produção desse tipo de
ditongo e verificar os fatores sociais e lingüísticos que estariam favorecendo
a redução dos mesmos.
A área de
observação constituiu-se de uma escola pública localizada na periferia da
cidade, e outra particular, freqüentada por alunos de classe média, localizada
no centro da cidade.
Selecionamos
quarenta alunos sendo 10 de cada série e de cada escola.
Os testes elaborados foram:
1. um questionário em que as respostas invariavelmente recaíam sobre
palavras apresentando ditongo. Esse teste teve o efeito de fazer o aluno sentir
que estava sendo avaliado pelo acerto às respostas e não pelo modo com que
estava respondendo. Em alguns casos a resposta foi obtida somente após a
reformulação da pergunta.
2. lista de palavras contendo as respostas às perguntas feitas no
questionário.
3. produção oral do diminutivo das palavras da lista.
4. leitura de uma estória contendo as palavras ditongadas, objeto deste
estudo.
5. atividade escrita em que os alunos elaboraram uma frase com cada uma
das 21 palavras contendo os ditongos, usados neste estudo.
Os alunos foram
entrevistados em duplas, a fim de que pudéssemos obter uma situação a mais informal
possível.
No aspecto mais
formal da língua, desenvolvido através da escrita, pudemos observar um índice
menor de redução dos ditongos /ey/, /ay/, e /ow/ em relação à ocorrência
manifestada nos testes orais. Entendemos que a redução do ditongo na escrita
reflete apenas erros de ortografia por desconhecimento da norma padrão.
Os vocábulos
usados pelos alunos no teste escrito, em forma de frases, foram os mesmos
empregados nos testes orais de questionário do diminutivo, da leitura do texto
e da leitura de lista de palavras. Destacamos os vocábulos lo[Ø]ca, o[Øvido] e
pene[Ø]ra, como os que apresentaram, entre os alunos de todas as séries, maior
número de redução de ditongo.
Considerando,
Assis Veado (1983: 210), que a redução do ditongo na Língua Portuguesa é um
fato corriqueiro, manifestado na oralidade por crianças, jovens, adultos e
velhos, preferimos não analisar o parâmetro idade e sim o grau de escolaridade.
Nossa tentativa
de uma análise lingüística estrutural dos fatores que favorecem a monotongação
se mostrou limitada pelo tamanho reduzido do “corpus”, contudo, podemos
perceber que há um certo favorecimento à redução do ditongo quando o contexto
fonético posterior for /r/, como em to[Ø]ro, gelade[Ø]ra, teso[Ø]ra, co[Ø]ro;
quando o contexto fonético for /j/, como em be[Ø]jo; quando for /š/, como em
pe[Ø]xe ou ainda, quando for /k/, como em po[Ø]co e lo[Ø]ca.
Notamos em
nossos dados que em contextos como leite, gaita e baile, com /t/ e /l/
posteriores ao ditongo, o mesmo se realiza normalmente, confirmando a regra
categórica (Assis Veado, 1989).
De uma maneira
geral, tanto alunos da escola particular como da pública, de ambos os sexos e
de diferentes séries investigadas, apresentaram nos testes orais uma tendência
acentuada para simplificar os ditongos /ey/, /ay/ e /ow/. Dos três casos de
ditongos aqui estudados, de modo geral, o que apresentou maior incidência de
redução foi o /ow/. A alternância foi verificada de forma acentuada em quase
todas as modalidades de testes aplicados, sendo que na fala casual, envolvendo
o questionário, foi onde mais se constatou. Os alunos da escola particular
apresentaram um rendimento maior para realizar o ditongo em relação aos da
escola pública. O fenômeno da redução na fala casual foi mais acentuado no sexo
masculino. Na fala casual, ainda, destacamos o vocábulo peneira como o que mais favoreceu a redução do ditongo /ey/; de 40
crianças, 38 pronunciaram “penera”. Da mesma maneira, como ocorreu com o
ditongo /ey/ em peneira, geladeira, etc., o ambiente consonantal /r/ posterior
foi o que mais favoreceu a produção da variante [Ø], p.e. em “toro” e “coro”.
Na redução do
ditongo, na expressão oral, o controle visando o estabelecimento da norma culta
fica mais difícil de ser feito, pois o fenômeno está se generalizando cada vez
mais, deixando de ser percebido como marca lingüística de fala não padrão.
A supressão da
semivogal em certos tipos de ditongos decrescentes ocorre quer seja por
comodidade do falante, por economia lingüística ou até mesmo por dificuldade
articulatória, como pudemos observar na fala casual de alguns alunos por nós
entrevistados.
O exercício de
percepção da variação da língua, aplicado com sucesso por Franchin (1984),
poderia surtir efeito no caso da percepção da alternância lingüística de /ey/,
/ay/ e /ow/; entretanto, constatamos neste estudo que a redução do ditongo não
consiste num problema de ensino, considerando que, na modalidade escrita da
Língua, em sala de aula, que é um registro formal, quase não percebemos a
ausência de ditongo, ficando esse fenômeno restrito à modalidade falada
(registro menos formal).
ASSIS
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Ática, 1985.
VARIAÇÃO LINGÜÍSTICA: UM OLHAR PARA O USO DO /S/ PÓS-VOCÁLICO EM
CORUMBÁ E LADÁRIO-MS
Rosangela
Villa da SILVA[77]
Resumo: Estando diante de uma multiplicidade de realizações do /S/
pós-vocálico na região de Corumbá-MS, tentamos estabelecer os fatores
lingüísticos e extralingüísticos que estariam interferindo nesse fenômeno. Há
uma oscilação permanente entre o emprego da variante palatal, da alveolar e do
apagamento do /S/ nos vacábulos, tanto em contexto medial como em contexto
final. Selecionamos 3.279 dados que, após processados pelo Programa VARBRUL, de
variação sociolingüística quantitativa, apresentaram os seguintes resultados:
os fatores lingüísticos que interferem no fenômeno de variação do /S/
pós-vocálico, na região estudada, são: contexto subseqüente, contexto
antecedente, tipo de item lexical, tonicidade da sílaba, valor mórfico do /S/ e
a extensão do vocábulo; os fatores extralingüísticos que interferem nessa
variação são: grau de escolaridade, faixa etária, sexo do informante e a
caracterização dialetal.
A realização do
/S/ pós-vocálico no português do Brasil continua sendo objeto de estudo por
parte daqueles que se interessam pela variação dialetal no país.
Estando diante
de uma multiplicidade de realizações do /S/ pós-vocálico, em Corumbá e Ladário
(MS), buscamos descrever os fatores intralingüísticos e extralingüísticos que
condicionam, favorecem ou desfavorecem essa variação.
Optamos por
inserir os falantes das duas cidades num só contexto devido à convivência ampla
de corumbaenses e ladarenses, nos aspectos sociais, econômicos, educacionais
etc.
Embora
contássemos com observações assistemáticas de uso da língua em relação ao /S/,
preferimos deter-nos no estudo efetivo dos dados gerados por informantes, em
entrevistas diretas.
Acrescentamos a
este estudo um teste de avaliação subjetiva, do uso das variantes do /S/
pós-vocálico, aplicado nos falantes da região.
O suporte
teórico da pesquisa é a metodologia da teoria da variação (cf. Labov, 1972),
com a estratificação dos informantes, adotando, ainda, procedimentos dos mais
atuais, aplicados aos estudos sociolingüísticos.
As gravações
foram transcritas segundo adaptação das normas de transcrição do Projeto da
Norma Urbana Culta (NURC/SP) e armazenadas em programa computacional.
Para identificar
a regra que possivelmente explica a variação do /S/ pós-vocálico observamos
atentamente os dados e separamos cada uma das pronúncias, a saber, [S], [Z],
[Š], [
], [Ø], estudando-as separadamente.
Dentre as
realizações do /S/ pós-vocálico encontradas em Corumbá, Ladário e fazendas
adjacentes a esses municípios, a mais usada é a palatalização, seguida da
alveolarização e do apagamento.
A tabela abaixo ilustra
melhor esse fato.
|
Variantes |
Palatal [Š, |
Alveolar [S, Z] |
Apagamento [Ø] |
|
Resultado Global |
61% |
21% |
18% |
|
/S/ em posição medial |
74% |
9% |
17% |
|
/S/ em posição final |
56% |
25% |
19% |
Ao estudarmos o
/S/ pós-vocálico em Corumbá e região, propusemo-nos a: 1. detectar as variantes
do /S/ pós-vocálico que a população dessas localidades estariam empregando; 2.
apurar, em termos quantitativos, qual seria a variante mais usada pelos
falantes dessas comunidades; 3. relacionar essas variações, por meio do
Programa de aplicação de Regra variável, a condicionamentos estruturais e
sociais, valendo-se da fala de grupos sociais diversos quanto à escolaridade, à
idade, ao sexo, e à caracterização dialetal.
O que este
estudo revelou foi o seguinte: 1. a forma palatalizada do /S/ pós-vocálico é a
numericamente mais usada pelos falantes dessas localidades (61%); 2. os
falantes universitários, primários e os analfabetos conservam a forma palatal,
padrão na região, enquanto que os falantes do 2º grau tendem a empregar mais a
variante alveolar; 3. os falantes das áreas rurais palatalizam com mais
freqüência o /S/ pós-vocálico que os falantes das áreas urbanas; 4. dentre as
diversas categorias de falantes, a que mais apaga o /S/ pós-vocálico, em todos
os contextos estudados, é a dos analfabetos; 5. o segmento fônico posterior
provou ser preponderante na variação, sendo o uso da alveolar categórico diante
de vogal; 6. o fator tonicidade, previsto como possível inibidor do
enfraquecimento, mostrou-se irrelevante, pois, na maioria dos contextos
analisados, constatou-se o oposto, maior variação na sílaba acentuada
(resultado que é coerente com aquele obtido por Canovas, 1991); 7. o sexo do
informante não foi considerado um fator importante para o Programa, no processo
de variação do /S/.
As mulheres
palatalizam mais que os homens, contudo, a diferença é mínina, embora, de
acordo com Labov (1972), quando isso ocorre, caracteriza-se um processo de
variação estável, o que se confirmou neste estudo. As mulheres indicam estar
conservando a variante palatal mais antiga na região[78].
O processo de mudança, ao que nos parece, está sendo iniciado pelos homens, que
indicam preferência pelo uso da alveolar[79].
Os mais jovens e os idosos são os falantes que mais palatalizam o /S/, os com
idade intermediária apresentam certa instabilidade lingüística, empregam tanto
a palatal como a alveolar, esta última, entretanto, com mais freqüência.
Parece-nos que
corumbaenses e ladarenses caminham no sentido de adoção de padrões de
comportamento lingüístico trazidos pelos migrantes de falares alveolares, como
mineiros, paulistas e gaúchos.
Buscando
corresponder às atribuições dos lingüistas de registrar e sistematizar as
mudanças lingüísticas que ocorrem, ao longo do curso da história, pensamos, com
esta pesquisa, ter dado uma pequena contribuição aos interessados em estudos
dessa natureza.
Situações de
variações lingüísticas como as observadas em Corumbá e região, além de
comprovar o poder criativo e inovador do ser humano de diversificar sem ferir a
unidade, garantem material lingüístico suscetível de análise, por quanto tempo,
ainda, tiver o homem o privilégio da comunicação verbal.
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A MARCAÇÃO DE PLURAL NO SINTAGMA NOMINAL
Elza Sabino da SILVA-BUENO[80]
Resumo: O presente trabalho tem por objetivo analisar alguns
fatores lingüísticos e extralingüísticos que estariam favorecendo a marcação de
plural no sintagma nominal e detectar como se realiza a flexão nominal de
número na linguagem oral inserida em um córpus coletado com informantes de São
José do Rio Preto.
INTRODUÇÃO
O material lingüístico deste córpus foi
coletado na cidade e região de São José do Rio Preto, com informantes do sexo
masculino e feminino de nível primário e de nível superior de escolaridade
distribuídos por duas faixas etárias: de 20 a 40 anos e de 4l a 60 anos.
O presente trabalho se propõe descrever,
analisar e explicar, na medida do possível, o sistema de marcação de plural no
sintagma nominal.
O fenômeno em estudo, marcação de plural,
será analisado a partir das três variáveis sociais já mencionadas, ressaltando
sempre a importância da Sociolingüística ou dos estudos sociolingüísticos, ao
tratar a variação lingüística e romper com a tendência lingüística de tratar as
línguas como sendo uniformes ou homogêneas.
1. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS
Admite-se que a língua é o elementos
essencial para a transmissão de idéias e informações entre pessoas de uma
determinada comunidade de fala. Nessa estreita relação entre língua e
sociedade, novas formas de dizer e de chamar os fatos do mundo vão sendo
criadas para atender às necessidades do homem no seu processo de interação
social. Por ser produto desse meio, a língua falada é dinâmica e diversificada.
Cabendo aos lingüistas, em especial aos sociolingüistas, o papel de procurar o
que há de regular e sistemático nessa aparente situação de heterogeneidade,
observando e descrevendo as variáveis lingüísticas e sociais utilizadas pelos
falantes de uma mesma comunidade de fala. A análise e descrição da variável
lingüística leva-nos a acompanhar o processo evolutivo da língua e a poder formular
regras gramaticais baseadas em dados lingüisticamente concretos, tornando o
ensino de línguas materna mais produtivo.
Alguns estudiosos (Lemos Monteiro, 1991),
por exemplo, acreditam que uma das mudanças para a qual a língua portuguesa
tende é em direção à anulação da redundância de seu sistema de pluralização.
Labov (1964), por sua vez, ressalta que as
classes menos favorecidas estão muito distantes dos valores das classes
privilegiadas e, assim, assimilam mal suas normas lingüísticas, ex.: “minha mãi meis parenti ficô tudu disisperadu” p.4, l.109. Labov acredita
que a grande causa da diferença entre o linguajar das classes baixas e a norma
culta ou padrão é o choque de sistema de valores. Uma vez que o comportamento
lingüístico é fortemente determinado pelo grupo, os membros de cada um desses
grupos procuram manter seus valores, dos quais um dos símbolos é a linguagem,
originando daí conflitos e diferenças. Esta teoria explica o fato de crianças
pobres americanas cursarem a escola por oito anos e não aprenderem a ler
(Fonseca e Neves, 1974:65-70).
Como é comum em trabalho de campo, a
constituição do córpus foi feita através de amostragem. Selecionamos um total
de 40 entrevistas, (20 com homens e 20 com mulheres) de um córpus coletado em
São José do Rio Preto. Algumas entrevistas não foram consideradas, ora porque
não apresentavam o fenômeno em estudo (marcação de plural no SN) ora porque
pretendemos trabalhar com cinco “informantes para cada variável”(Tarallo,
1985).
Como pretendemos trabalhar com a marcação
de plural no SN, vale mencionar aqui uma breve noção de concordância nominal, a
qual entendemos como o princípio sintático segundo o qual as palavras
dependentes se harmonizam, nas suas flexões, com as palavras de que dependem,
ou seja, é a concordância existente entre o núcleo do SN, no grupo dos
elementos nominais, e seus determinantes.
Como sabemos, o plural no português é
marcado redundantemente ao longo do SN: no determinante, no nome-núcleo e nos
modificadores-adjetivos. A variação na marcação de plural no SN pode, portanto,
tomar, por exemplo, as seguintes formas: a) uS olhuS vidraduS, b) aS
queimaduraS enormiØ, c) aS bolhaØ enormiØ.
No exemplo (a), o falante reteve a marca
de plural ao longo do SN, espelhando assim em seu desempenho lingüístico a
norma padrão do português. No (b), o falante retém a variante (s) na posição de
determinante e de nome-núcleo, mas lança mão da variante (Ø) para a posição de
adjetivo modificador. Já em (c), o falante utiliza-se da variante não-padrão
(Ø) nas duas posições finais do SN, retendo a marca de plural somente na
posição inicial.
Considerando os elementos constitutivos do
SN e, também, o núcleo do SN, observaremos se há posições que favorecem ou
desfavorecem a presença de marcas, por exemplo: “tomou umas quatro caipirinha”
p.11, l.338. Observaremos se é possível haver uma única marca de plural no
interior do SN: “os cachorro corria”p.13,
l.391, e, ainda, com relação aos elementos localizados fora do SN, mas que se
referem a ele, se há posições que favorecem ou desfavorecem a presença de
marcas.
Verificaremos, por meio das variáveis
sociais já mencionadas, quem apresenta e por que apresenta maior ou menor
índice de marca /S/ e de /Ø/ de plural, com base nos dados obtidos.
Cabem aqui algumas observações a respeito
dos critérios adotados para a seleção das ocorrências.
1- Sns com todas
as marcas formais de plural; ex.: “...eu
bati a cabeça em várius lugares...”p.30,
l.954,
2- Sns com algumas
marcas ou apenas uma marca de plural, ex.: “...todas a farpinha...”p.32,
l..1023, “...trabalhá pra criá us filhu
deli...”p.6, l.183 e
3- Sns contendo um
numeral como primeiro elemento, exs.: “...tinha
dois cachorru grandi...”p.12,
l375, “...eram im dois motorista...”p.16,
l.506.
2. RESULTADOS DECORRENTES DA ANÁLISE
Observamos que o fenômeno da flexão
nominal, em especial a de número, embora siga em partes o padrão da língua
escrita, devido ao nível sócio-cultural de parte dos informantes, não se
apresenta de modo uniforme na língua falada. Está, portanto, sujeito à variação
e esta variação pode ser observada tanto no interior do SN, quanto nos
elementos externos ao SN.
Considerando o caso dos elementos
constitutivos do SN, percebemos que há posições que favorecem a presença de
marcas, enquanto outras desfavorecem. A primeira posição geralmente favorece a
presença, seja ela ocupada por determinante ou pelo núcleo. Exs.: “us amigu da firma”, “dois passageru
discunhecidu”, frases pronunciadas por falantes de nível primário, da
primeira faixa etária.
Com relação ao núcleo, a posição à
esquerda favorece a presença e a posição à direita desfavorece-a. Exs.: “só tinha us ferimentu leve”, “dipois divagar cum muitu carinhu das infermera...médico...i di mais
amigu”.
Observamos ser possível haver uma única
marca de plural no interior do SN, recaindo, neste caso, com grande
probabilidade, no primeiro elemento do SN. Ex.: “...cortou us arame e saiu na istrada...”.
Com relação aos elementos localizados fora
do SN, o distanciamento em relação ao núcleo do SN ao qual se liga seria um
fator que favorece a falta de marcas. Ex.: “...elis ficaru muitu apavoradus - quasi morri - mas passadus alguns minutus a criança chorou i elis ficaru tudu
assustadu...”.
Convém ressaltar que quando o primeiro
elemento do SN é constituído por um numeral, dificilmente o informante de nível
primário faz a concordância com os demais elementos da oração, fato quase não
observado nas narrativas dos informantes de nível superior. Exs.: “...eli foi surpreendidu pur treis tiru...”, “...tinha dois cachorro grande...”.
Como já foi dito, a concordância na língua
portuguesa, principalmente a de número, é marcada redundantemente várias vezes
por meio das flexões dos diversos vocábulos de um enunciado, ex.:”...freiei o carro com todas as minhas forças...”,
para Chaves de Melo (1970), se apenas um dos vocábulos, nesta oração, tivesse
flexão de plural, bastaria para expressar convenientemente a noção de
pluralidade.
2.1 VARIÁVEL SEXO
Muitos estudos, na tentativa de investigar
o comportamento lingüístico de homens e mulheres, consideram a variável
masculina como a “língua” e a feminina como o “desvio”.
Labov (1990), dentro de uma visão
sociolingüística, aponta dois princípios básicos, resultantes de inúmeras
pesquisas, nas quais enfatiza a variável sexo:
i- Numa
estratificação sociolingüística estável, os homens usam com mais freqüência as
formas “não-padrão”.
ii- Na maioria dos
fenômenos de mudança lingüística são as mulheres que iniciam, usando formas
“não-padrão”.
Porém, no processo de variação estável, as
mulheres não poderiam simplesmente ser consideradas conservadoras, mas
percebe-se que preferem e utilizam as formas “padrão” de maior prestígio,
evitando formas estigmatizadas. Entretanto, nos processos de mudança
lingüística ocorreria um fenômeno inverso, pois, nesse caso, as mulheres
apresentam-se como inovadoras, utilizando as formas “não-padrão”.
Para melhor exemplificar os dados
levantados acima, damos uma tabela, onde constam os dados quantitativos e
percentagens de /S/ e de /ø/ de plural no sintagma nominal, observados na
variável sexo.
Tabela 1
|
sexo ------------------- variante |
homem |
mulher |
|
S |
117
68,8% |
117
71,3% |
|
ø |
53 31,2% |
47 28,7% |
|
Total |
170
100% |
164
100% |
A tabela mostra que as mulheres apresentam
maiores valores com a forma “padrão”, ficando os homens com um leve
favorecimento da “não-padrão”. As freqüências indicam que, entre as mulheres,
71,3% das ocorrências foram de marca formal de plural /S/ contra 28,7% de
ausência de marca de plural /ø/. Entre os homens, temos 68,8% de ocorrência de
/S/ contra 31,2% de /ø/. Convém lembrar que tanto os homens quanto as mulheres
registraram um alto índice de marcas formais de plural.
2.2 VARIÁVEL NÍVEL DE ESCOLARIDADE
Foi a esperança de captar os efeitos dessa
variável cultural que nos levou a analisar a fala de indivíduos de nível
primário e de nível superior de escolaridade; queríamos medir as possíveis
discrepâncias e averiguar se há uma correlação entre nível de escolaridade e
configuração da regra de preservação da marca de plural no sintagma nominal.
Em termos globais a hipótese foi
ratificada, pois, como mostra a tabela 2, os indivíduos de nível superior
contribuem com 87,7% para a preservação da marca em oposição aos 40% dos
indivíduos de nível primário. Acreditamos que a escola, o prestígio social e a
influência da escrita, entre outros fatores, devem contribuir para a
preservação de marcas formais de plural.
Tabela 2
|
Nível de
escolaridade --------------------------- variante |
primário |
superior |
|
S |
49
40% |
185
87,7% |
|
ø |
74
60% |
26
12,3% |
|
Total |
123
100% |
211
100% |
2.3 VARIÁVEL IDADE
A idade do falante é uma variável
importante no sentido de verificar se o fenômeno em estudo, marcação de plural
no sintagma nominal, encontra-se em um processo de variação estável ou em
mudança lingüística. No primeiro caso, as variantes coexistem numa “relação de
temporalização” (Tarallo, 1985); no segundo, a variante inovadora é mais
freqüente entre os mais jovens, sendo cada vez menos utilizada à proporção que
a idade do falante avança.
Neste trabalho os jovens demonstraram ser
mais conservadores que os adultos, contribuindo com 71,4% para a marcação de
plural em oposição a 69,3%. Essa diferença, apesar de não ser tão
significativa, pode justificar-se devido ao fato de que nesta fase da vida
(20-40 anos), as pressões advindas do ingresso ao mercado de trabalho exigem um
comportamento lingüístico mais próximo do padrão. Os adultos (41-60 anos) já
estão estabilizados no mercado e não têm
mais tanta preocupação com linguagem. Esses dados poderão ser melhor
visualizados por meio da tabela a seguir.
Tabela 3
|
Idade --------------------- variante |
20-40 anos |
41-60 anos |
|
S |
85
71,4% |
149
69,3% |
|
ø |
34
28,6% |
66 30,7% |
|
Total |
119
100% |
215
100% |
CONCLUSÃO
Podemos dizer que o resultado desta
pesquisa confirma o esperado. Os falantes cultos ou de nível superior de
escolaridade tendem a aplicar as regras de pluralização, no SN, preconizada
pela gramática normativa. A pequena quantidade de “desvios” sugere uma quase
automática produtividade de marcação de plural no SN, pois, de 211 ocorrências,
185 evidenciam a aplicação da regra padrão, correspondendo a 87,7% do total de
ocorrências.
Confirma-se, então, que o morfema de
plural /S/ não se acrescenta aleatoriamente a todos os vocábulos da língua
portuguesa, mas segue uma certa ordem dentro da oração.
Homens e mulheres apresentaram índices de
freqüência bastante próximos, o que sugere que a regra de pluralização dos
elementos do SN está disseminada quase que de maneira homogênea entre usuários
dos dois sexos.
Os informantes da primeira faixa etária,
ou seja, de 20 a 40 anos, mostram ser mais conservadores que os da segunda 41 a
60 anos, mas isto se justifica, como já foi dito, devido às pressões sociais
advindas do ingresso no mercado de trabalho.
BIBLIOGRAFIA
CÂMARA JR., J. M. Estrutura da língua portuguesa. Rio de
Janeiro: Vozes, 1991.
LABOV, W. Stages in the
acquisition of standard english. Estágios na aquisição do inglês standard.
Champaign: national council of teachers of english. In: FONSECA, M.S.V. e
NEVES, M. F. (orgs.) Sociolingüística.
Rio de Janeiro: Eldorado, 1974.
LEMOS MONTEIRO, J. Os pronomes pessoais no português do Brasil.
Rio de Janeiro, 1991. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Rio de
Janeiro.
MELO, G. C. de. Gramática fundamental da língua portuguesa.
2.ed. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1970.
TARALLO, F. A
pesquisa sociolingüística. São Paulo: Ática, 1985.
A REDUÇÃO DO DITONGO: um estudo sociolingüístico
Elza Sabino da SILVA-BUENO[81]
Resumo: Esta comunicação procede de um artigo que teve por
objetivo levantar alguns fatores extralingüísticos que estariam interferindo na
realização dos ditongos AI, EI e OU e comparar tais fatores com os locais
envolvidos no estudo, tentando estabelecer quais desses fatores estariam
predominando em cada uma das regiões estudadas.
INTRODUÇÃO
Este artigo não pretende qualquer novidade
sobre o ensino de língua materna, ao contrário, o que se pretende aqui já se
faz muito discutido e publicado por estudiosos como Antenor Nascentes, Amadeu
Amaral, Miriam Lemle e outros. Faremos apenas uma reflexão sobre o uso dos
referidos ditongos.
Ao analisarmos esses ditongos na fala de
alunos de 2ª, 5ª e 8ª séries do primeiro grau de escolas centrais e de
periferia, verificaremos se há redução ou monotongação; caso haja, se é
corriqueira e onde é mais condicionada, se na variável sexo, se na variável
localidade ou se na variável grau de instrução.
Introduziremos alguns fundamentos teóricos
que serviram de base à análise, juntamente com a metodologia utilizada para o
desenvolvimento da pesquisa, o córpus onde se encontram os referidos ditongos,
a análise estatística dos dados coletados, ou seja, a análise propriamente dita
dos dados e, finalmente, a referência bibliográfica.
METODOLOGIA
Muito se tem escrito e falado acerca da
variação lingüística nos últimos trinta anos. Os responsáveis pela política e
planejamento do ensino de língua materna têm enfatizado a necessidade de
pesquisa e discussão do assunto, para que se possa proceder a uma revisão do
estudo do processo de aprendizagem de uma língua.
Ademais, tem o tema originado um número
relativamente grande de pesquisas por parte de estudiosos das ciências da
linguagem, a exemplo de Labov, Bright, cujo enfoque de suas pesquisas tem sido
a manifestação lingüística em seus múltiplos aspectos.
Com o surgimento da sociolingüística, os
sociolingüistas rompem com a tendência lingüística de tratar as línguas como
sendo completamente uniformes, homogêneas, pois, antes, as diferenças
encontradas nos hábitos lingüísticos ou hábitos de fala de uma comunidade eram
encobertas pela denominação “variação livre”. Uma das tarefas da
sociolingüística é demonstrar que na verdade tais variações ou diversidades
lingüísticas não são livres, mas correlacionadas a diferenças sociais
sistemáticas e a fatores lingüísticos.
Como é comum em trabalho de campo, a
constituição do córpus foi feita por meio de amostragem e levamos em
consideração as seguintes variáveis sociais:
a - Sexo - masculino e feminino;
b - Localidade - escola de centro e escola
de periferia e
c - Grau de instrução - 2ª, 5ª e 8ª séries
do primeiro grau.
Foram entrevistados 24 informantes, sendo
doze do sexo masculino de escola central e de periferia, da 2ª, 5ª e 8ªséries
do primeiro grau e doze do sexo feminino, também de escola central e de
periferia das mesmas séries.
Vale destacar que as entrevistas foram
realizadas na casa do informante, por se tratar de um lugar propício ao clima
de informalidade que buscávamos, e, não foram feitas entrevistas sem o prévio
consentimento do informante.
O CÓRPUS
Para o levantamento do córpus,
consideramos escolas de centro e de periferia em três estados: São Paulo,
Paraná e Mato Grasso do Sul, com o objetivo de comparar a redução dos referidos
ditongos na fala de informantes de cada estado.
As perguntas foram formuladas obedecendo a
quatro fases distintas. A primeira e a segunda fases são o questionário e o
diminutivo, ambas com perguntas de estilo mais informal, objetivando registrar
a redução dos ditongos nas respostas dadas pelos informantes.
Nas duas últimas fases, a lista de
palavras e a leitura do texto, o estilo usado foi mais formal, ou seja,
passou-se da procura de um estilo informal para um estilo mais formal,
constatando-se que em ambos os casos houve a redução do ditongo, sendo que nas
duas últimas fases, a redução ocorreu com menos freqüência.
ANÁLISE DOS DADOS E
INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS
A VARIÁVEL SEXO
Trabalhamos com a variável sexo a fim de
constatarmos, por meio de análise dos dados coletados, quem monotonga mais, se
os homens ou as mulheres, pois de acordo com Fischer (1974) as mulheres são
consideradas mais conservadoras no seu modo de falar, às vezes chegam até mesmo
a iniciar uma mudança lingüística - Labov (1990). Os dados da variável sexo
poderão ser constatados na tabela a seguir que resume os resultados
encontrados.
Tabela 1
|
Sexo --------------------- variante |
masculino |
feminino |
|
|
0[82] ø |
0 ø |
|
EI |
6 2 |
5 2 |
|
AI |
5 0 |
5 1 |
|
OU |
6 2 |
6 2 |
Analisando estatisticamente a tabela
podemos notar que não há diferença significativa no comportamento lingüístico
de homens e mulheres em nossa amostragem. Nos dados de ambos a redução do
ditongo foi quase que idêntica.
VARIÁVEL LOCALIDADE
Através da variável localidade, escola de
centro e escola de periferia, podemos constatar que, ao contrário da teoria de
que criança proveniente de classe social menos favorecida fala “errado” e
criança de classe social mais privilegiada fala “correto”, este fenômeno não
pôde ser constatado em nossos dados, pois não foi possível classificar quem
realizou mais e quem realizou menos a variante em estudo. Como podemos observar
na tabela que segue.
Tabela 2
|
Localidade ----------------------- variante |
centro |
periferia |
|
|
0 ø |
0 ø |
|
EI |
5 2 |
6 2 |
|
AI |
5 1 |